segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A ERA DO TÔ ME ACHANDO



Por que necessitamos cada vez mais da aprovação, do amor, da admiração e (até) da inveja dos outros? Entenda como funcionam os mecanismos da vaidade – e saiba como se imunizar para não ficar se achando a última bolacha do pacote.

Por Ronaldo Bressane


“Bacana teus óculos”, falei. Leves, classudos, num tom esportivamente escuro, cada lente com uma sombra que subia de baixo para cima, tornavam misteriosos o olhar do amigo, um jovem editor. Comentei que nunca o tinha visto de óculos. Ele devolveu: “pois é, mas eu estava com a vista cada vez mais cansada, até que fui ao oculista e ele me disse que precisava usar. Dois graus de miopia. Excesso de leitura. Fazer o quê...”, compungiu-se, o olhar vago, empurrando o par de lentes nariz acima com um charme intelectualmente sofrido. Mês depois, encontrei uma amiga cujo pai é oftalmologista. Entre anedota e outra, ela me contou que um curioso cliente do pai havia pedido um modelo de óculos sem grau. É, era ele mesmo – o editor.

Vivemos tempos curiosos. A cada segundo, e através de todos os meios possíveis, somos expostos aos corpos mais perfeitos, às biografias mais irretocáveis, à pose generalizada de famosos e anônimos. Vaidade pura. Mas um momento: você já experimentou sair por aí todo mulambento, comparecer despenteado a uma entrevista de emprego, esconder de parentes e amigos aquele êxito nos estudos? Impossível, não? Porque, hoje, não ter vaidade – não ter o hábito de apregoar aos quatro cantos, reais ou virtuais, o quanto você pode ser atraente, sensacional e único – parece ser um dos maiores pecados da nossa era, esse tempo em que todo mundo parece estar “se achando”.

Por isso, os óculos de araque do meu amigo. No meio altamente intelectualizado em que ele vive, circulando entre Festas Literários de Paraty e debates seguidos de sessões de autógrafo nas livrarias mais chiques do eixo Rio-São Paulo, ostentar uma armação bacanuda é o equivalente, em termos culturais, às pernas muito bem torneadas – horas de academia – da mocinha da novela das 8. Ou seja: tudo vaidade.

Vício letal?

Parece fácil, mas vaidade, como parâmetro norteador desta época, é algo bastante volátil para definir. Vai longe o tempo em que ser vaidoso bastava para condenar um cidadão, ou editor, ao inferno. No início da cristandade, a vaidade, sob a alcunha de vanglorio, foi pecado capital; por volta de 1500, integrou a lista na forma de orgulho ou soberba; ainda é a mais diabólica contravenção para os cristãos ortodoxos; segue relacionada à Prostituta da Babilônia no Apocalipse. Foi o que conduziu Lúcifer, mais belo dos anjos, do lado direito do Senhor aos portões do inferno, por rejeitar a imagem de Deus em benefício da própria. Vanitas vanitatum, ominia vanitatum, diz o Qohélet (Eclesiastes), sobre o sentido da vida – a tradução corrente é “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, porém o poeta e tradutor Haroldo de Campos preferiu cercar a expressão “vacuidade” do hebraico ao termo “ilusão”. E, quando iniciamos o passeio pelo significado da palavra, este se adensa, ao mesmo tempo que esfumaça... Bem, estamos falando de aparências.

Pelo Dicionário Analógico da Língua Portuguesa de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, inexplicavelmente esgotado desde 1984, “vaidade” tem 71 substantivos afins, incluindo “ânsia incontida de despertar admiração”, “parlapatonice”, “exibicionismo”, “pretensão”, “megalomania”, “egoísmo”, “inchaço” e, claro, “narcisismos”. (Um dicionário analógico não traz sinônimos, e sim conceitos dispersos pelo campo semântico das palavras; este do lendário Santos Azevedo, mestre de Sérgio Buarque de Holanda, estrutura-se em exatos mil verbetes, começando em “existência” e terminando em “templo”; “vaidade” está entre “ostentação” e “orgulho”.)

Meu sinônimo favorito, o que ajuda a iluminar nosso tempo, é “inchaço”. Até por causa da característica física da palavra – como se o vaidoso estivesse “cheio de si”. Mas que seria concretamente esse “si”? O ser ou o nada? Batom, botox ou fotos bacanas no Facebook? Sapatos Gucci, um iPod novo ou um belo currículo na Casa do Saber? O cabelo do Justus, a peruca da Dilma, os pneus do Ronaldo Fenômeno, o bigodão do José Sarney, o retrato de Doriam Gray? A obsessão pela juventude dos sessentões vampirescos atrás de menininhas, a susanavieirização do mulherio? A vaidade sempre seria ruim, ou poderia ser um componente positivo da competitividade, um estímulo caprichoso à autoafirmação? Ou seria mesmo um vício – e um vício letal, matando tanto anônimos que tentam ficar lindos na mesa da lipoaspiração quanto os Michael Jacksons que lutam pela glória através de remédios contra a dor de horas de torturantes exercícios físicos?

Narcisismo epidêmico

Óbvio que, na sua ampla e incansável psiquiatrização do cotidiano, os norte-americanos já tratam a vaidade como patologia. Autora de Generation Me (»Geração Eu», sem edição brasileira), a psicóloga Jean Twenge crê que a autoconfiante geração nascida em 1980 - que passa horas lambendo as migalhas da própria existência entre o Facebook e o Myspace - é muito mais narcisista que as gerações anteriores.

Twenge trabalhou com o colega W. Keith Campbell no recém-lançado best-seller a analisar os miolos moles dos ianques: The Narcissism Epidemic (“O narcisismo epidêmico”, ainda sem edição brasileira). Para a dupla, a coisa ficou preta e o espelho trincou – e o resultado, ora vejam, é o bode expiatório da vez, a malfadada crise econômica.

Parece meio infame, tanto quanto o transtorno obsessivo narcisista. Mas faz sentido – sobretudo para a alma norte-americana, sempre tão disposta a diagnosticar-se e tratar-se e partir para o próximo transtorno como se não houvesse amanhã, caso a doença mexa no bolso. Em entrevista à revista de educação US World Report, Campbell afirma ter comparado as pesquisas com jovens entre narcisistas e obesos: “Os resultados forma bem semelhantes”, diz. Numa amostragem de 35 mil jovens, a dupla de psicólogos descobriu que 6% sofriam de transtorno obsessivo narcisista. Contudo, somente 3% das pessoas acima de 65 anos tinham esse transtorno. “Um dado a comprovar que estamos em uma epidemia fora de controle”, afirma o psicólogo.

Ele enumera quatro causas: a educação dos pais, a cultura de celebridades, a mídia e o crédito barato. “Muitos pais tratam seus filhos como reis”, diz. “Reality shows são altamente narcisistas, e supõe-se que sejam a vida real; neles, subentende-se que o narcisismo é algo normal”. Campbell é especialmente duro com a rede. “As pessoas nunca falam que lêem Guerra e Paz, de Leon Tolstoi, no Myspace. Em vez disso, colocam fotos sensuais, a coleção de amigos, as músicas legais. Para piorar, crédito barato faz com que os jovens gastem para se pareceram melhores do que são. Têm coisas que não fizeram força nenhuma para ganhar.” Claro que esse argumento financeiro tem muito a ver com a realidade americana, onde bolhas econômicas costumam ser uma rotina – mas, afinal, o mundo está cada vez mais parecido com os Estados Unidos.

Vaidosos Anônimos

Provavelmente, a valorização do discurso da autestima e a febre da autoajuda são culpadas dessa apoteose ao me-achismo. Porém, como depois da tempestade sempre vem a ambulância, conforme deduziria o pensador Vicente Matheus, imagino que daqui a alguns anos a loucura narcísica dará valor a autocasca-de-banana, ao autofail: aprenderemos a puxar em público nosso próprio tapete. Como bem faz esse grande vaidoso que é Woody Allen (vai dizer que deixar de ir receber um Oscar porque a data caía no mesmo dia em que ele toca com sua banda de jazz em um clubinho de Nova Iorque não é o extremo da vaidade?). Esse culto desenfreado ao amor-próprio ainda vai produzir coisas estranhas... Em breve, abrirão inscrições para o Vaidosos Anônimos. Pode escrever.

Por enquanto, vamos vivendo a grande época da vaidade. A imodéstia saiu do armário e está toda serelepe: não à toa a burca foi proibida na França pelo presidente Sarkozy (cuja soberba se estende dos saltos dos sapatos que o elevam à não menos digna de vaidade primeira-dama Carla Bruni). Mas... não seria também a burca , ao esconder a figura feminina (ou os filhos do finado Michael Jackson), sinal de extrema vaidade? Não é cinismo: segundo o Islã, o véu torna as mulheres atraentes porque sutilmente apela à sua vaidade. Não importa quão feia ou velha seja a muçulmana: qualquer homem fica louco à lera visão de seus cabelos descobertos. Assim, sob seu modesto esconderijo, uma muçulmana é a mais desejável das criaturas. Já as pobres ocidentais, agindo livres, encontram-se com homens em situações prosaicas, acabam, pela rotina, se tornando sem graça. A não ser que sejam jovens e belas, cairão fatalmente sob o olhar indiferente dos pares – deixarão de ser tratadas como objeto de mistério para virarem meros objetos sexuais. O que me faz pensar na pretensa vaidade de sujeitos como os escritores americanos Thomas Pynchon e JD Salinger, e os brasileiríssimos Rubem Fonseca e Dalto Trevisam, reclusos assumidos. Fogem de entrevistas e retratos como Madonna das trevas do anonimato. Paradoxo de hoje: o véu que os cobre não os tornará bem mais valorizados?

Na outra ponta do estudo do narcisismo, o filósofo francês Gilles Lipovestsky faz uma abordagem ao mesmo tempo eufórica e catastrófica – espelho fiel do espírito da época, a que ele nomeia de forma eloqüente, ao gosto dos franceses, como A Era do Vazio. O próprio texto de Lipovestsky é hiperbólico, afeito aos paradoxos, extremamente vaidoso, cioso de si. Mas delicioso, e crivado de teses brilhantes. Em O Império do Efêmero, Lipovestsky faz uma leitura bastante original da cultura contemporânea através da importância cada vez mais crescente da moda. Muito gaulesmente, diz que a moda – especialmente a florescida em Paris – condensa na idéia de individualidade os ideais da Revolução: liberdade, igualdade e fraternidade.

Solidão em massa

“A promoção das frivolidades só pôde se efetuar porque novas normas se impuseram, desqualificando o culto heróico de essência feudal e a moral cristã tradicional, que considera as frivolidades como signos do pecado do orgulho”, afirma Lipovestsky. “Da idéia de altivez relativa à dignificação das coisas terrestres saiu o culto moderno da moda, uma das manifestações (...) da humanização do sublime.” O filósofo não separa a moda – e, assim, o fascínio pelo Novo – da ideologia individualista, do culto ao bem-estar, aos gozos materiais, ao desejo de liberdade, à vontade de enfraquecer a autoridade e as coações morais, ao triunfo da ideologia do prazer.

No entanto, Lipovestsky lembra que a busca dos valores individuais traz um fenômeno ainda mais estranho que o estudado pelos senhores psicólogos acima: a “solidão em massa” refletida no número cada vez maior de suicídios. “A era da moda consumada é inseparável da fratura na comunidade e do déficit de comunicação: as pessoas se queixam de não serem compreendidas ou ouvidas, de não saberem se exprimir” – uma festa de autistas que lembra um pouco uma rave impulsionada por ecstasy, ou uma sessão furibunda de Twitter movida a banda larga.

O pensador francês sugere que vivemos um segundo momento da Era do Vazio, em que “a busca da riqueza não tem nenhum objetivo senão excitar admiração ou inveja”. Nesse mundo ultracompetitivo, o Outro só faz sentido se viabilizar o sucesso do Eu. No igualmente sombrio e triunfante A Era do Vazio, Lipovestsky aproxima os conceitos de vacuidade e vaidade, vazio e Narciso: “Que outra imagem é melhor para significar a emergência de individualismo na sensibilidade psicológica, centrada sobre a realização emocional de si mesma, ávida de juventude, de esportes, de ritmo? (...) O neonarcisismo é psicologia pop: a expressão sem retoques, a prioridade do ato de comunicação, a indiferença em relação aos conteúdos, a assimilação lúdica do sentido, a comunicação sem finalidade e sem público, o remetente transformado em seu principal destinatário”.

Em uma imagem que resuma tudo: o meu elegante amigo observando-me superior por trás das lentes falsas, feliz da vida por enganar a si mesmo.

Retirado de Vida Simples, outubro 2009. Edição 84.

Você precisa estar no centro das atenções (médicas) se...

- Possui senso grandioso de autoimportância (espera ser reconhecido como superior sem que tenha feito ações à altura)

- Preocupa-se com fantasias de sucesso, poder, brilho, beleza ou amor ideal ilimitados

- Acredita que é “especial” e que só pode ser compreendido por outras pessoas especiais ou de status elevado

- Precisa de admiração excessiva

- Sente-se em posição de possuir direitos, ou seja, tem expectativas além do razoável de receber tratamento favorável ou de aceitação automática das suas expectativas

- Não demonstra empatia, não tem disposição para reconhecer os sentimentos e as necessidades alheias ou identificar-se com isso

- Muitas vezes inveja os demais ou acredita que os outros o invejam

- Demonstra comportamentos ou atitudes arrogantes e insolentes

- Leu este teste observando-se no espelho (brincadeira...)

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